Posta o prompt!
Se for escrever um texto, posta o prompt. Eu prefiro ler ele do que o resultado dele.
Outro dia publiquei um desabafo no LinkedIn que rodou mais do que eu esperava. Era mais um pensamento que um post. O miolo era simples: eu prefiro mil vezes ler o pensamento cru de alguém, exatamente como a pessoa queria dizer, do que a versão pasteurizada de como o ChatGPT acha que ela deveria ter dito. Sabe aquele meme do “dei tantas instruções para a IA que quase escrevi eu mesmo”? Então, eu sugeria: posta a instrução. O prompt na maioria das vezes tem mais alma, mais urgência e do que o texto final polido e envernizado que sai do outro lado.
Mas essa reflexão me levou a um rolê mais incômodo. A gente reclama que o texto de IA é genérico, cheio de fórmulas de marketing. Mas de onde a IA tirou isso? Ela não inventou o jargão corporativo do nada. Ela foi treinada em anos e anos dos nossos próprios press releases, dos nossos posts de liderança inspiradora, dos nossos manifestos de marca, etc. A inteligência artificial só aprendeu a regra do jogo que nós criamos. Até aí tudo bem (nada bem já que nós falavamos desse jeito, pra ela falar assim né).
Mas o próximo problema é que agora parece que o ciclo se fechou de uma maneira doida. De tanto lermos e produzirmos conteúdo otimizado para algoritmos, de tanto buscarmos a “copy perfeita”, começamos a internalizar esse modo máquina. A gente deu a volta completa. Abastecemos as IAs com tanta informação —> ensinamos elas a soarem tão “profissionais” —> e agora, nós aprendemos de volta com ela, e estamos escrevendo cheio dos jargões coporativos, ACRESCIDOS dos da IA.
A pergunta que fica aqui é: você saberia dizer com certeza se eu escrevi este texto sozinho ou se tive ajuda? Se você leu até aqui procurando pistas — uma palavra repetida, uma concordância estranha, um adjetivo exagerado — parabéns, você caiu na paranoia do novo Teste de Turing. (Esses travessões que eu coloquei aqui. Foram intencionais pra blefar ou foi uma IA falando)? A perfeição virou motivo de desconfiança. Assim como micro desvios propositais também.
Chegamos ao ponto bizarro em que, para provar nossa humanidade, precisamos reivindicar o erro. No meu post, eu falava da saudade de ler uma vírgula mal colocada, uma hipérbole sem sentido, uma muleta narrativa, mas que tivesse emoção. O erro virou nossa assinatura biometria. Se o texto tropeça, a gente relaxa: “eba, foi uma pessoa que escreveu”. Se o texto desliza suave demais, a gente liga o alerta de fraude.
O perigo nao é a IA escrever como nossos releases, mas nós começarmos a escrever exatamente como ela, só para nos adequarmos a um padrão de “qualidade” que nós mesmos inventamos.
É uma crise de identidade autoral. Queremos ser lidos, mas temos medo de escrever “errado”. Aí usamos a ferramenta para corrigir, e o resultado fica “certo” demais, logo, artificial. Parece aquela casa de espelhos. A gente olha para o texto e não sabe mais se está vendo o reflexo de um humano tentando ser profissional ou de um robô tentando ser humano, ou um humano, sendo robo, e voltando a ser humano.
Sei la eu não chego a lugar nenhum nesse texto porque não tem resposta, e nem quero ser ludista a ponto de dizer pare de usar IA. Só, sei la, posta logo o seu prompt e não o resultado dele.
A gente se vê.



